A Poética da Desrazão: O Medo do Vazio e a Potência de Não Preencher Tudo

 

"Se o tolo persistisse em sua loucura, tornar-se-ia sábio."William Blake

 

Existe uma pressa invisível que nos organiza. Uma urgência silenciosa que nos diz, o tempo todo, que o espaço em branco precisa ser ocupado, que o silêncio na conversa precisa ser desfeito e que a segurança da casa — e da vida — depende do nosso controle absoluto.

Se você passa os seus dias sentindo que precisa sustentar uma engrenagem pesada para que tudo funcione ao seu redor, talvez já tenha percebido o perigo sutil dessa dinâmica: o hábito nocivo de confundir o ser necessária com o ser amada.

Para manter tudo de pé, aprendemos a nos guiar pela razão pura, pela utilidade e pela produtividade estéril. Mas o que acontece quando a vida transborda? O que acontece com aquilo que o mundo insiste em chamar de "loucura" ou "excesso", mas que na verdade é apenas a nossa alma tentando respirar para além das regras?

O Enclausuramento dos Nossos Excessos

Historicamente, o mundo ocidental nem sempre teve medo do que foge à regra. Houve um tempo em que os visionários, os poetas e aqueles que falavam a linguagem do absoluto tinham lugar de escuta. Mas, conforme a sociedade se tornou obcecada pela ordem e pela produção, tudo o que não gerava lucro ou utilidade passou a ser visto como um erro. Criou-se um "grande enclausuramento" daquilo que é livre.

Se Jesus de Nazaré caminhasse pelas ruas de uma grande metrópole hoje, proferindo o desapego absoluto, acolhendo os marginalizados e vivendo sem pressa, sua poética do amor seria lida como um sintoma. Seus transes seriam medicados; seu silêncio, tratado como ausência. O homem que dividiu a história seria destituído da palavra porque a sua verdade não cabe na engrenagem produtiva.

Muitas vezes, fazemos o mesmo com as nossas próprias inquietações. Quando um cansaço antigo ou uma intuição profunda tenta emergir, o nosso primeiro reflexo é a patologização. Chamamos a nossa sensibilidade de "drama" ou "excesso", e corremos para limpar a mesa, para organizar a rotina, para garantir que nada saia do lugar.

O Espaço Onde a Palavra Falha

O poeta William Blake escreveu uma vez que "se o tolo persistisse em sua loucura, tornar-se-ia sábio". Há uma sabedoria na insistência de não se deixar domesticar.

Onde o olhar clínico enxerga apenas o colapso, as grandes místicas da história e a própria psicanálise encontram o sujeito tateando as bordas do absoluto. O transe místico ou o delírio poético são, no fundo, tentativas profundas do psiquismo de reconstruir uma realidade que faça sentido quando o mundo externo se torna violento ou estéril demais.

É a experiência que transborda a lógica dos homens. O místico é aquele que habita o terreno onde a palavra falha e, em vez de se desesperar com o silêncio, suporta a imensidão do próprio espaço vazio. Porque o absoluto dentro de nós não é um excesso de conteúdos ou de tarefas; é, na verdade, a vastidão do espaço pronto para criar.

O Vazio Constitutivo e a Hospitalidade do Feminino

É nesse ponto que a nossa jornada existencial encontra a anatomia e o simbolismo mais sagrado do feminino: o útero.

O útero não se define pela solidez de uma massa, mas pela sacralidade da sua cavidade. Ele é, por excelência, o vazio constitutivo do feminino. Ao contrário do que a pressa moderna nos faz acreditar, o vazio não significa escassez, privação ou abandono. Sua potência repousa justamente na coragem de estar desocupado.

Enquanto a lógica que herdamos nos empurra para a obsessão pelo preenchimento, pelo limite e pela posse, o feminino sabe dialogar intimamente com o mistério e com a falta. O útero é o espaço da hospitalidade pura: uma dimensão capaz de se dilatar para abrigar a alteridade, para acolher o novo, sem a pretensão de dominá-lo ou engoli-lo.

Compreender o vazio sob essa perspectiva é resgatar o "vazio fértil". O vale, por ser a depressão do relevo, é o ponto exato para onde convergem as águas e onde a vida prolifera. Da mesma maneira, o vazio do psiquismo feminino é o palco de onde brotam não apenas a descendência biológica, mas os projetos autorais, a subversão artística e a soberania sobre o próprio tempo.

O Parto da Palavra

Expressar-se no mundo através da escrita ou da arte emula esse mesmo mistério uterino: pressupõe a coragem de silenciar o ruído externo, suportar o vazio da página em branco e permitir que as ideias amadureçam na escuridão fértil do pensamento até estarem prontas para o parto da palavra pública.

A loucura, a mística e o feminino revelam-se como instâncias que se recusam a entupir o ser com as certezas estéreis e pesadas do mundo. Elas preferem salvaguardar o espaço onde a alma permanece livre para criar.

🪐 Habite a sua própria imensidão

Este ensaio reflete os pilares profundos que sustentam o ecossistema Plenitude 80/20 e a Teoria da Permissão: o movimento de descolonizar a mente, escutar o corpo e resgatar o vazio não como solidão ou escassez, mas como território de soberania, autonomia e criação.

Essa investigação sobre os territórios invisíveis da nossa mente e do nosso corpo é a fundação do romance Casa Invisível, que já está publicado e disponível na Amazon. Na história de Ana, você encontrará o espelho dessas estruturas invisíveis que herdamos e a beleza de aprender a olhar para o ar transparente para, finalmente, mudar o ar por completo.

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